Ritmo de crescimento das exportações desacelera em agosto, mostra FGV

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Ritmo de crescimento das exportações desacelera em agosto, mostra FGV (Foto: Pexels) Ritmo de crescimento das exportações desacelera em agosto, mostra FGV

O saldo da balança comercial de agosto foi de US$ 6,6 bilhões, elevando o superávit acumulado no ano para US$ 36,3 bilhões, segundo dados da Fundação Getulio Vargas (FGV). O resultado, como tem ocorrido ao longo do ano, é explicado pela acentuada queda nas importações (28,5% entre os meses de agosto de 2019 e 2020) e não por uma melhora nas exportações, que recuaram 9,8%.

No mês de agosto, as operações com plataformas de petróleo não influenciaram os resultados, mas, na análise do acumulado do ano, é importante separá-las. No caso das importações, a variação no acumulado até agosto em relação a igual período de 2019 registrou uma queda de 6,6% (com plataforma) e de 9,4% (sem plataforma). Para as exportações, como mostra o Gráfico 1 do Press Release, a diferença é menor. Observa-se que o ritmo de crescimento no volume exportado desacelerou (2,2%) na comparação interanual do mês de agosto em relação aos resultados dos meses de junho e julho, quando os percentuais na variação ficaram ao redor de 11%.

O recuo nas importações entre agosto de 2020 e 2019 foi de 21,7%, menor do que o da comparação interanual do mês de julho (queda de 28%), mas mesmo assim foi alto e não permite concluir que os efeitos da desvalorização cambial estejam começando a ter um impacto significativo na queda das importações.

Os preços das commodities mantiveram o mesmo comportamento na série de comparação interanual mensal e recuaram 15,6% no mês de agosto. O volume exportado das commodities cresceu 14,3%, menos do que foi registrado na comparação dos meses de junho (30,2%) e julho (29,7%) entre 2019 e 2020. As exportações de não commodities continuaram em declínio e agosto registrou a segunda maior queda na comparação interanual (22,5%) após julho (27,4%). A desaceleração no ritmo de crescimento das exportações está associada, portanto, ao comportamento da commodities, que explicaram 67% das exportações brasileiras em agosto.

Em agosto, todos os dez principais produtos exportados pelo Brasil foram commodities e explicaram 60% da pauta brasileira. Cinco produtos registram variação positiva: açúcar (107%); ouro não monetário (35%); soja (25%), carne bovina (16%); e farelo de soja (5,4%). A predominância dos produtos agropecuários está refletida nos resultados das exportações por setor de atividade.

O volume exportado da agropecuária cresceu (13,8%) na comparação entre os meses de agosto e 20,1%, entre os acumulados do ano. O setor extrativo registrou queda em agosto (1,1%), mas, entre o acumulado do ano até agosto de 2019 e 2020, aumentou 2,0%. O pior desempenho continua sendo o da indústria de transformação com queda de 5% na comparação interanual dos oito primeiros meses dos anos de 2019 e 2020. Após ter crescido 1,8% na comparação mensal de julho, o resultado do setor foi de estagnação em agosto.

Ressalta-se que 45% das exportações da indústria de transformação são commodities. Essas registraram variação positiva de 24,6% entre agosto de 2019/2020 e de 27,6% entre julho de 2019/2020. O volume das exportações de não commodities da indústria de transformação recuou 14,1 % (agosto 2019/20) e 13,2% (julho de 2019/2020). Logo, tanto as exportações de commodities quanto a de não commodities tiveram pior desempenho em agosto do que em julho na comparação interanual, o que explica a passagem de um crescimento de 1,8% para 0%, já mencionado.

Todos os setores registram quedas no volume importado na comparação do acumulado do ano e mensal, exceto a agropecuária com aumento de 1,3% em agosto. Câmbio desvalorizado e queda no nível de atividade econômica doméstica explicam o recuo nas importações.

Os volumes exportados por categoria de uso da indústria de transformação recuaram na comparação mensal e no acumulado do ano até agosto, exceto dos bens não duráveis, em que estão presentes as comodities dessa indústria. O volume exportado de bens não duráveis cresceu 34,8% na comparação mensal e 20,8% no acumulado do ano. Observa-se que a maior queda no volume exportado foi nos bens duráveis de consumo (37%), se considerarmos as exportações de bens de capital sem plataformas (32,1%). O pior desempenho dos bens duráveis é explicado pelo setor automotivo que foi afetado pela forte queda da atividade na Argentina, afetada pela pandemia e as outras questões que já estavam presentes no país, como inflação e a dívida externa. Nas importações, todas as categorias de uso recuam, exceto os bens não duráveis., mas com aumento de apenas 0,7% na comparação do acumulado do ano.

É possível que a queda nas compras de bens intermediários pela indústria reflita algum processo de substituição das importações incentivado pela desvalorização cambial como alguns especialistas especulam? Até o momento é prematuro fazer essa afirmação, pois o câmbio ainda apresenta um comportamento instável e a recuperação da economia é lenta.

Na análise dos mercados de destino das exportações brasileiras, a China continua na liderança em termos de volume exportado e de contribuição para o superávit da balança comercial. No acumulado do ano até agosto, o saldo Brasil-China foi de US$ 25,5 bilhões enquanto, para os Estados Unidos, o Brasil acumulou um déficit de US$ 3 bilhões. Estados Unidos e América do Sul (exclusive Argentina) lideram a queda do destino das exportações. Ressalta-se a menor retração das vendas para a União Europeia (3,2% no acumulado do ano), onde é registrada aumento das vendas de soja e óleo bruto de petróleo.

Em adição, chama atenção o crescimento de 0,8% das exportações para a Argentina, a segunda variação positiva no ano - a outra foi de 2% entre março de 2019/2020. O aumento em 90% nas exportações de veículos rodoviários e de 2% de automóveis, em agosto, explica essa variação positiva, pois os 10 principais produtos restantes da pauta para a Argentina registraram queda. O acordo automotivo entre o Brasil e a Argentina ajuda a explicar esse resultado.

Zerada a tarifa de importação sobre o arroz
O governo zerou a alíquota de importação de dois tipos de arroz para uma cota de 400 mil toneladas com o intuito de conter a alta de preços e evitar o risco de desabastecimento até 31 de dezembro. As alíquotas eram de 10% para o arroz paddy e de 12% para o arroz glaceado. Os gráficos 9a e 9b do Press Release mostram como as exportações aumentaram em 2020 em relação a 2019. No acumulado do ano até agosto, as exportações em volume aumentaram 234% e em valor 165%, no caso do arroz paddy. Para o arroz com maior grau de beneficiamento, o arroz glaceado, em volume em 85% e, em valor, 87%. No entanto, os gráficos também mostram uma possível tendência de queda a partir de agosto.

No caso do arroz paddy, o crescimento das exportações veio acompanhada de uma diversificação de mercados. Em 2019, a Venezuela respondia por 89% das exportações e, em 2020, 36%. Entraram na lista dos principais mercados, países que registraram exportações próximas de nula, em 2019. Um exemplo é a Turquia com participação quase nula em 2019 e de 5,2% em, 2020 em função e um aumento de 708 mil por cento. Para o arroz glaceado, o principal exportador foi o Peru nos dois anos com participação de 30,7% (2019) e 21,4% (2020), com aumento de 30%. Os maiores aumentos ocorreram em outros mercados como Venezuela (174%) e Estados Unidos (211%), que já estavam entre os principais mercados de exportações.

No caso das importações, a variação no acumulado até agosto foi um recuo de 84% de volume e de 18% em valor no caso do arroz paddy. Para o arroz glaceado, houve queda no valor de 4,1% e aumento de 6,2% em volume. As principais fontes de importações para o Brasil são nos dois casos o Paraguai, Uruguai e Argentina, que já entram no mercado brasileiro com tarifa zero.

A elevação dos preços não se resume à elevação das exportações favorecida pela desvalorização cambial. Aumento do consumo domiciliar por conta da pandemia e o auxílio emergencial também teriam contribuído para o efeito sobre os preços.

É preciso observar se zerar a alíquota vai ter efeito no preço final do produto, que passa por canais de distribuição que também influenciam o preço. A experiência passada de utilizar importações como forma de conter preços não teve bons resultados na década de 1980.

(Redação – Investimentos e Notícias)