Como o open banking vai mudar rapidamente nossa visão a respeito dos bancos

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Como o open banking vai mudar rapidamente nossa visão a respeito dos bancos Foto: Divulgação Como o open banking vai mudar rapidamente nossa visão a respeito dos bancos

Em fevereiro deste ano o open banking entrou em operação no Brasil e já movimenta o ecossistema financeiro para a implantação das novidades estabelecidas por meio de regulamentação do Banco Central, órgão que lançou e está coordenando o processo. A proposta do modelo é ser um sistema que permitirá o acesso de empresas e dos usuários, a informações bancárias de maneira transparente e segura tanto por aplicações quanto por instituições. Isso será possível por meio da tecnologia de APIs (interfaces de programação de aplicações), que, resumidamente, são um meio de disponibilizar e receber informações de maneira ordenada para que outros desenvolvedores implementem aplicações a partir destas informações.

Dessa explicação, no entanto, podemos derivar diversos outros pormenores também bastante interessantes, como a possibilidade de entrada de novos players menores no mercado (principalmente fintechs), a criação de produtos financeiros mais acessíveis, a maior liberdade do usuário em relação às próprias informações, entre outros objetivos pensados pelo Banco Central ao trazer esse conceito para o sistema financeiro do Brasil tomando como exemplo o já bem-sucedido case do Reino Unido, onde mais de 2,5 milhões de pessoas aceitaram utilizar o sistema financeiro aberto.

Embora possamos nos espelhar nos acontecimentos gerados pelo open banking nas terras da rainha, as duas realidades guardam diferenças significativas, o que demanda adaptação da experiência britânica à nossa. Por isso, é interessante antes ressaltar que no Brasil ainda teremos um caminho a percorrer durante 2021, se todos os prazos estabelecidos pelo Banco Central forem mantidos, até que todas as fases de implantação do sistema financeiro aberto alcancem a plenitude de funcionalidades esperada dele. Ao todo, serão quatro etapas.

As mudanças implantadas a cada etapa do open banking no Brasil

Na primeira fase de implantação do sistema financeiro aberto, já em andamento, os grandes bancos (participantes obrigatórios) estão adequando suas tecnologias a fim de que possam disponibilizar informações padronizadas sobre canais de atendimento, contas de depósito à vista e operações de crédito, entre outros produtos e serviços. É com esses dados que começarão a surgir aplicativos que comparam tarifas de contas, cartões e outros serviços, por exemplo.

Portanto, ainda não está disponível a possibilidade de os clientes optarem pelo compartilhamento dessas informações entre as instituições. Isso só acontecerá a partir da segunda etapa, programada para 15 de julho de 2021. Aqui os usuários dos bancos e das demais instituições financeiras começarão a notar de forma mais aprofundada as novidades trazidas pelo open banking. Isso porque, a partir dessa data, começará a ser possível pedir aos usuários a permissão de compartilhamento de seus dados.

Dessa forma, o primeiro efeito prático será a possibilidade de a pessoa transitar entre instituições financeiras participantes do open banking levando todo o seu histórico bancário consigo. Assim, não será necessário reconstruir toda uma relação de confiança, que às vezes leva anos, para que possa usufruir de benefícios oferecidos para seu perfil de cliente.

Jovens serão o principal público no primeiro momento

Aliás, nessa etapa, a adoção do open banking será bastante direcionada pelas fintechs, que no momento focam o público formado pelas classes A, B e C com produtos de crédito e têm maior penetração na faixa etária de 20 a 30 anos de idade, por afinidade de comunicação e imagem. Para outros públicos, ainda será preciso estabelecer uma melhor comunicação fora dos meios digitais – tanto por parte do regulador, que é o Banco Central, quanto pela parte das empresas interessadas em cativar essas pessoas – muitas delas, cerca de 40 milhões, foram bancarizadas só em 2020 em decorrência da pandemia.

Pelo lado dos bancos, o segundo efeito prático é que o usuário poderá esperar um atendimento mais cuidadoso, com melhores produtos e serviços, já que a concorrência também será maior devido à menor necessidade de “fidelidade”. Estima-se também que verejamos maior variedade de produtos e soluções vindos dos novos modelos de negócios gerados pela disponibilidade de acesso a informações. Ainda que o open banking seja especialmente pensado para fomentar o ecossistema de fintechs, as instituições financeiras tradicionais terão, sim, benefícios decorrentes de seus maiores recursos disponíveis para inovação.

O cliente verá, ainda, uma corrida pela personalização da sua experiência bancária. Tendo mais dados e disposição para gerar produtos e serviços perfeitamente adequados às pessoas, será o momento ideal para os bancos criarem formas de oferecer soluções pensadas para perfis cada vez mais específicos.

Também de acordo com o cronograma do Banco Central, a terceira e a quarta etapa estão previstas para 30 de agosto e 15 de dezembro, respectivamente, e ampliarão as possibilidades quanto à troca de informações bancárias. De acordo com o Banco, na terceira etapa, passará a ser possível a execução de transações de pagamento e de encaminhamento de proposta de crédito. A quarta fase, por sua vez, abrirá aos clientes ferramentas para que compartilhem informações de operações de câmbio, investimentos, seguros, previdência complementar aberta e contas-salário. Com isso estará completo o ciclo de implantação e já poderemos ver no fim do ano algumas novidades.

Instituições financeiras poderão contar com parceiros qualificados na área de tecnologia

A exemplo do que está acontecendo no Reino Unido, sabemos que a premissa do open banking é de fato mexer com as estruturas vigentes até então no sistema financeiro do país e até mesmo mudar a visão das pessoas a respeito dele. Ao implantá-lo seguindo a regulação, os prazos e as exigências de compliance, com a ajuda de empresas que buscaram unir os exemplos do mundo à própria expertise na área tecnológica, todo o ecossistema poderá se beneficiar da novidade e conquistar ainda mais clientes.

Por fim, para que essa mudança de visão do sistema bancário brasileiro se complete rapidamente, as empresas não só têm um desafio de implementação tecnológica, seguindo as determinações do regulador quanto à estrutura dos dados e aos prazos, como também vão precisar comunicar muito bem aos seus clientes todos os passos que os dados deles percorrerão entre as empresas. Neste momento, para superar esses primeiros desafios, é importante contar com parceiros especializados nessas tarefas para que o open banking seja implantado com tranquilidade.

ricardobendoraitisRicardo Bendoraitis é Diretor Comercial de Open Banking do Grupo FCamara que é voltado à criação de soluções tecnológicas para empresas do setor financeiro.