ICOMEX: Incertezas para o resultado da balança comercial

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ICOMEX: Incertezas para o resultado da balança comercial (Foto: Divulgação) ICOMEX: Incertezas para o resultado da balança comercial

O índice da taxa de câmbio real efetiva deflacionada pelo IPCA Brasil e os índices de preços ao consumidor dos principais parceiros do Brasil (Estados Unidos, Argentina, China, Zona do Euro, Reino Unido e Japão) valorizou continuamente entre o ano 2000 e 2014, depois desvalorizou em 23% entre 2014 e 2015 e volta a se valorizar em 13% entre 2015 e 2017, segundo dados da Fundação Getulio Vargas (FGV). Quando analisamos a evolução mensal do câmbio, desde janeiro de 2017, observamos que após a valorização ocorrida em 2017, o câmbio iniciou uma trajetória de desvalorização desde janeiro de 2018 e acumulou até maio um aumento de 10%.

A evolução do câmbio real é um dos principais determinantes das exportações (além da demanda mundial) e das importações (além da demanda doméstica) de manufaturas. As commodities que explicam cerca de 60% das exportações brasileiras são influenciadas também pelo câmbio, mas nesse caso a demanda mundial e os preços tem uma influência maior do que o câmbio. A valorização do real foi acompanhada pelo aumento do déficit comercial que chegou a US$ 109,5 bilhões em 2014. Após esse período o déficit reduz. No acumulado de janeiro a maio de 2018, o déficit foi de 18,9 bilhões e em igual período de 2018, de US$ 25,4 bilhões. 

A melhora no saldo comercial entre 2015/16, entretanto foi puxada principalmente pela retração no nível de atividade. Apesar da desvalorização cambial entre 2015 e 2017 quando comparamos com os índices de câmbio real, entre 2008/2014, as importações caíram em 2015 e 2016, mas as exportações também caíram ou registraram pequeno aumento (1,6% entre 2016/2017). O ano de 2017 foi positivo para a balança comercial, embora o déficit tenha aumentado entre 2016 e 2017 (passou de US$ 43,7 bilhões para US$ 47,7 bilhões), tanto as exportações cresceram como as importações com a melhora no nível de atividade. Para 2018 era esperado um déficit maior que 2017 com a continuação da recuperação da economia. Esse resultado se confirma com o crescimento do déficit na comparação entre o acumulado até maio de 2017 (US$ 18,9 bilhões) e o de 2018 (US$ 25,4 bilhões). Nesse mesmo período, as importações cresceram 19% e as exportações, 9,5%. 

O crescimento das importações de manufaturas poderá arrefecer nos próximos meses a medida que sejam confirmadas as previsões de queda no nível de atividade e aumento no grau de incerteza na economia associado ao cenário eleitoral. Os produtores irão atrasar planos de investimentos e comparas de insumos num cenário de câmbio volátil. Do lado das exportações, a desvalorização cambial impulsiona as vendas de manufaturas, mas deterioração das expectativas de crescimento do comércio mundial com o efeito Trump não ajuda. Além disso, os nossos principais compradores de manufaturas enfrentam problemas. A Argentina, 19,8% das exportações de manufaturas do Brasil no acumulado até maio de 2018, deverá crescer menos do que o esperado com o programa de ajuste do FMI. Os Estados Unidos, 18,4%, das compras de manufaturas nesse mesmo período, poderá sobretaxar não só o aço, mas outros produtos, se considerarmos o efeito “inesperado” de Trump. 

A previsão da balança comercial do Relatório Focus do Banco Central em 15 de junho foi de US$ 58 bilhões, um valor acima do estimado quatro semanas antes US$ 56 bilhões. É preciso considerar o comportamento das commodities que representam 60% das exportações brasileiras. Até maio, na comparação entre 2017/2018,as exportações de commodities cresceram 3,9% e das não commodities, 10,8%. Entre maio de 2017/2018, as exportações de commodities aumentaram 6,0% puxadas pelos combustíveis (44%) e das não commodities registraram queda de 16%. Logo, quando separamos apenas as não commodities (lembramos que algumas commodities são classificadas como manufaturas, como suco de laranja e laminados, por exemplo), será preciso observar se o resultado de maio já é uma indicação dos fatores antes citados de possível arrefecimento no crescimento das exportações. Nesse caso, o saldo comercial poderá piorar, mesmo com um menor ritmo das importações.

No momento, o cenário é de incertezas e consideramos que projeções ao redor de um superávit para a balança comercial de US$ 55 bilhões são factíveis.