Telemetria automotiva: Vantagem para quem compra ou para quem vende?

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A telemetria automotiva foi introduzida no mercado movida por fortes interesses dos fornecedores de tecnologia e equipamentos. A concorrência entre os fornecedores fez com que estes buscassem diferenciais tecnológicos mais sofisticados, explorando ao máximo as possibilidades de geração de dados. Com isto, os equipamentos ficaram sofisticados, precisos e, consequentemente, mais caros.

O mercado, por sua vez, aceitou esta prática e passou a usar o critério de maior numero de funcionalidades e precisão, como um diferencial na escolha do equipamento. Porém, o valor elevado acabou restringindo a aplicação de Telemetria. O resultado disto é que, na melhor das estimativas, temos apenas cerca de 25.000 veículos equipados com Telemetria no Brasil.

Considerando que a frota de veículos é de cerca de 35 milhões e que, destes, cerca de 5 milhões seriam caminhões ou ônibus, a taxa de penetração desta tecnologia é de menos de 0,07% no total de veículos e de cerca de 0,5% em ônibus de caminhões.

A Telemetria auxilia muito nas ações voltadas a economia em manutenção e consumo de combustível e na redução de riscos de acidentes. Porém, ela sozinha, não toma ação nenhuma. A empresa necessita de um programa voltado para a mudança comportamental de seus motoristas. O suporte de profissionais especializados na análise dos dados de telemetria é fundamental. Equipamentos caros e sofisticados exigem profissionais de análise mais caros.

Somando-se a isto os custos relativos ao tempo de afastamento do motorista para o treinamento coloca o custo final em um nível tão elevado que os donos de frotas são desencorajados a colocar em prática um programa de mudança comportamental de motoristas, pela duvida que eles passam a ter sobre a compensação dos custos totais pelos benefícios obtidos com a economia gerada.

Podemos comparar a cultura usada em Telemetria a um exame médico de rotina. Seria como fazermos um Check Up completo (ultra-sonografia, raio X, ressonância magnética, exames completos de sangue, urina etc) para verificarmos se uma pessoa esta doente ou não.O clinico geral utiliza, apenas, um estetoscópio, termômetro e o medidor de pressão. Havendo alguma suspeita de algo mais sério, o médico solicita um exame específico e sofisticado.

Podemos identificar um motorista com um perfil pouco cuidadoso, “agressor”, observando-se apenas, algumas atitudes. Dificilmente ele é ruim em somente uma das variáveis medidas pela telemetria tradicional.Como exemplo podemos usar um caso muito comum. Quem se utiliza de transporte de ônibus urbano e precisa viajar em pé, identifica se o motorista é cuidadoso ou não. O motorista não cuidadoso torna a viagem extremamente desconfortável aos passageiros que viajam de pé.Observar a freqüência e intensidade das freadas já é suficiente para a diferenciação de tipos de condução.

Porém, como um produto tende ser valorizado pelo nível de sofisticação e precisão, e não pela sua simplicidade, os fornecedores de soluções de “telemetria” ficam se contentando com os 0,5% do mercado. Algumas soluções objetivas e simples já estão sendo oferecidas. Resta saber se o mercado irá adotá-las com a percepção de que a melhor solução pode e deve ser a mais adequada e não a mais complexa.

Eduardo Meirelles - Pós-graduado em engenharia de segurança pela UFRJ, Eduardo já participou da elaboração de normas técnicas relativas à proteção do meio ambiente pela ABNT, foi sócio diretor de uma empresa da área de logística. E atualmente ocupa a Gerencia de Pesquisas & Desenvolvimento da 3T Systems.