Compreendendo a recente correção de mercado

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Compreendendo a recente correção de mercado Foto: Divulgação Compreendendo a recente correção de mercado

Muitos investidores estão perplexos diante da acentuada correção que sacudiu as bolsas de valores no início de fevereiro. A questão que precisamos nos fazer é se a atual turbulência demonstra que os mercados são realmente irracionais, entrando em pânico quando a economia real está finalmente mostrando sinais tangíveis de recuperação, quando a inflação sai da zona de perigo e menos de um mês depois da fase de absoluta euforia do mercado. Poderíamos afirmar que a recente correção, na verdade, marca o início do retorno a um comportamento racional, independentemente de quanto isso possa ser desconfortável para os investidores.

Rever o que ocorreu há alguns anos pode ajudar a esclarecer a situação. Sufocados por suas pesadas dívidas, após a crise financeira de 2008, os governos dos países desenvolvidos alegaram que não tinham capacidade de colocar as suas economias nos trilhos novamente. Desta forma, a tarefa ficou totalmente a cargo dos bancos centrais. Lançando mão de todos os esforços, fizeram a única coisa que qualquer banco central pode fazer para manter a economia funcionando: injetaram dinheiro no sistema. Depois de baixar as taxas de juro de referência a zero, e mais abaixo ainda, os bancos centrais corajosamente implementaram políticas monetárias nada convencionais que consistiam, principalmente, em comprar um volume imenso de ativos financeiros do mercado. Estas políticas deixaram o sistema financeiro cheio de liquidez e, por meio, de compras contínuas e massivas de títulos, empurraram os juros para baixo.

A resultante queda do rendimento dos títulos públicos levaram os investidores a procurar por rendimentos mais altos em outros lugares, nos títulos corporativos e mercados de ações. O processo completo colocou as bolsas de valores e obrigações em uma corrida de proporções históricas. De 2013 a 2017, por exemplo, a Eurostoxx 600 ganhou mais de 40%, e o rendimento dos títulos públicos do governo alemão diminui quatro vezes, indo de 2% para 0,5%. Neste período, não importava para os mercados de ações que o crescimento econômico fosse muito frágil, porque a situação da economia real não era o que motivava os investidores a comprar ações. Era antes a promessa dos bancos centrais de injetar dinheiro de forma interminável, o que ajudaria a continuar mantendo o preço dos ativos. E embora pareça contraintuitivo, já que essas políticas financeiras tiveram impacto insuficiente sobre a economia real, os investidores puderam ter certeza de que os bancos centrais continuariam intervindo e as cotações continuariam a subir.

A pergunta certa a se fazer naquele momento era qual seria a forma do processo de saída dessas circunstâncias excepcionais.

Se uma política monetária pouco convencional terminasse por fracassar, ou seja, se a inflação e o crescimento do PIB despencassem, os mercados financeiros seriam abalados por uma grande crise de confiança. Os resultados negativos não aconteceram. O outro resultado possível era o sucesso, ou seja, que o crescimento econômico e a inflação melhorassem como resultado do excepcional estímulo monetário. Mas se e quando isto ocorresse seria hora de suprimir essas políticas, o que levaria os juros de volta aos níveis “normais”, e as ações refletiriam essa normalização. É isto o que estamos testemunhando hoje.

O que precisamos entender é que a corrida de mercado dos últimos anos implicou uma decisão sobre o curso dos fatos entre esses dois resultados complicados. A Reserva Federal dos Estados Unidos conseguiu parar de comprar títulos em outubro de 2014 sem perturbar muito as bolsas de valores e o mercado de títulos. A explicação é que tanto a produção como a inflação não eram “nem muito altas nem muito baixas”. Além disso, o Banco Central Europeu deu início ao seu próprio programa de compra de ativos pouco tempo depois, em 2015. Quando em junho de 2016, a vitória do Brexit chocou os mercados financeiros, os bancos centrais conseguiram acalmar os investidores ao prometer o apoio necessário. E, então, 2017 nos deu o melhor de todos os mundos. O crescimento econômico finalmente estava no caminho certo (fortalecendo o preço das ações nesse processo), mas sem a retomada da inflação, permitindo que os bancos centrais recorressem para políticas monetárias de normalização em um ritmo mais lento.

A perspectiva que emerge hoje é que pegaremos o “caminho certo” para sair do recente e longo período de estímulo monetário. Todos os principais bancos centrais estão prontos para reduzir ou mesmo abandonar as suas políticas anteriores. Isso é com certeza uma boa notícia para a economia. Mas os investidores precisam entender que os fatores de crescimento, com os quais se habituaram, em breve regredirão. Não há mais nenhuma justificativa para uma queda contínua das taxas de juros. A intervenção do banco central fez com que caíssem tanto que acabaram desconectadas da realidade econômica. As taxas de juros agora deverão voltar aos níveis normais. Infelizmente, os cortes tributários da administração Trump colocaram mais lenha na fogueira. Isso inchará o déficit do orçamento e forçará o governo dos EUA a pedir mais empréstimos, justamente quando o Banco Central está começando a recuar. Isto significa que agora existem duas fontes de pressão crescente sobre o rendimento dos títulos, mesmo antes de nos preocuparmos com a inflação. Na Europa, o rendimento dos títulos públicos do governo alemão ainda está obviamente muito longe dos níveis “normais”, mesmo depois de aumentar para 0,75%.

Os mercados financeiros agora devem voltar para preços realistas. Acordar de um sonho tão bom será, compreensivelmente, uma nova experiência.

Uma vez que os preços das ações e das obrigações superarem a consequente instabilidade e se ajustarem à nova realidade, os investidores precisarão se assegurar que a economia ainda está em boa forma suficiente para se tornar o novo motor da bolsa de valores, mas desta vez com base em avaliações mais razoáveis. Se e quando isto ocorrer, poderão existir oportunidades de ouro de recuperação, como vimos após a brutal correção de mercado de outubro de 1987, por exemplo. No entanto, se a economia desacelerar, os bancos centrais não terão outra alternativa senão usar o seu remédio recente para recuperar a saúde dos mercados. Uma curva tão acentuada assim inicialmente acalmaria todo o mundo, mas também levaria a uma lamentável admissão de fracasso. É aí onde mora o verdadeiro risco: se a economia estiver estagnada e se mostrar muito frágil para lidar com um aumento no estresse financeiro, então os indicadores do crescimento e da inflação poderão sofrer um revés. Descobriremos isso em poucos meses.

Didier Saint-Georges, Diretor Executivo e Membro do Comitê de Investimento