Compartilhamento, Anonimato e Civilidade

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Nesses tempos de redes sociais e aplicativos de comunicação pela Internet via celular, é grande a perplexidade de responsáveis pelo bem estar de jovens no domínio de seus ambientes escolares. É preciso saber o que fazer diante de uma nova realidade que envolve a troca de mensagens sob a “proteção” do anonimato, e, em alguns casos, direcionadas a todos os usuários situados numa determinada localidade. Um desses aplicativos permite que as pessoas postem, sem ter a origem identificada, mensagens só de texto que podem ser visualizadas por outros usuários dentro de um raio de 1,5 km. As mensagens não incluem etiquetas de localização ou um nome de usuário, dando a ilusão de anonimato. Já um outro aplicativo permite lançar fofocas anonimamente para um grupo de amigos sobre quem quer que seja, sem que o autor corra o risco de ser facilmente identificado.

Não apenas estão ameaçadas a segurança e a integridade física e moral desses jovens envolvidos nesse território virtual de mensagens anônimas, seja através de assédio moral ou físico, humilhação e bullying, como também a própria reputação de professores, educadores, e, em última instância, do responsável maior pela instituição dentro de cujos muros se dão essas atividades nunca dantes imaginadas possíveis. Trata-se de mais um desses grandes desafios ao tecido social e à convivência trazidos pela evolução tecnológica dos quais não há que se furtar, mas sim encarar com firmeza de propósito e de valores éticos e morais. Lembrando o Dalai Lama, “abra seus braços para as mudanças, mas não se desfaça de seus valores”.

Ao que tudo indica, a proibição do uso de aplicativos dessa natureza, como foi tentado por escolas mundo afora, parece não ser o melhor caminho. Além da enorme gama, e que cresce a cada dia, de aplicativos desse tipo, parece inevitável que se recaia no velho “o que é proibido é mais gostoso”. Das iniciativas mais criativas que têm sido relatadas, uma merece destaque: a Irmo High School de Lexington, Carolina do Sul, criou o serviço de alertas anônimos (“Anonymous Alerts”) através do qual alunos ou pais na comunidade escolar podem enviar aos anonimamente aos administradores da escola um aviso sobre qualquer atividade suspeita, assédio moral, bullying ou outra atividade relacionada aos alunos que represente uma ameaça à integridade física ou moral de algum membro da comunidade.

Em artigo publicado em 15/05/2014 no portal Techcrunch.com intitulado “Investors Debate The EthicsOfAnonymityApps”, Alexia Tsotis relata a preocupação de investidores com a moralidade de se investir no crescente espaço de empreendimentos de comunicação anônima depois de uma série de posts negativos, fofocas mainstream, uma renúncia de alto perfil e até mesmo ameaças de bombardeio e violência, que têm elevado o volume do debate a níveis altíssimos. Um dos mais influentes investidores do Vale do Silício, Marc Andreessen, fundador da Netscape, se manifestou contra a tendência de se investir em aplicativos dessa natureza alegando que tais produtos seriam "destinados a incentivar o comportamento negativo, dilacerando emocionalmente as pessoas, tornando companheiros almas tristes.”

Apesar de compartilhar com a preocupação desses investidores, Tsotsis se declara uma usuária satisfeita do Secret e outros aplicativos semelhantes, e quer vê-los se adequar melhor de forma a fazer o bem com o mínimo de efeito colateral negativo. Trazendo este aspecto do comportamento humano para a discussão e estimulando o diálogo franco e aberto já é um primeiro passo, assim como é a utilização de recursos como sinalização e moderação humana. O próprio portal do Secret explica que emprega moderadores humanos para minimizar os males eventualmente decorrentes dos eventuais desvios de comportamento de seus usuários, e deixa uma lista de conselhos do tipo “Faça” e “Não Faça”. Segundo o portal, “Nós criamos o Secret para dar às pessoas uma nova maneira de compartilhar livremente e se conectar com amigos. Nós acreditamos que o anonimato incentiva as pessoas a compartilhar seus pensamentos e sentimentos mais profundos, gerando conversas genuínas que seriam impossíveis de outra forma. As palavras estão no centro de cada segredo, e nós queremos que a nossa comunidade seja um lugar seguro e libertador para todos se expressarem verdadeiramente.”

Como diz Tsotsis, o tema da moderação é de suma importância e vai além da tecnologia, passando a ser uma questão de como os seres humanos devem tratar uns aos outros: Podemos forçar o uso de gentileza? Será que desejamos? Será que temos a obrigação moral de fazê-lo? E se o fizermos, como podemos fazê-lo sem uma mão pesada da censura? Quem decide o que é difamação, ou um comentário justo? Quando é que a fofoca se torna calúnia? E será que estamos equipados como uma indústria para lidar com essas questões?

Tudo isso parece chamar a atenção para uma demanda da própria civilização humana para a necessidade de se propiciar melhores condições para o discurso franco, honesto e sem receios de retaliação de qualquer natureza. E que a Internet parece estar viabilizando essa demanda. Vale a pena uma reflexão.

Senão vejamos.

Um grande insight sobre o comportamento humano a partir de estudos da era pré-Internet de comunicação é a tendência das pessoas para não falar sobre questões de política em público, ou entre os seus familiares, amigos e colegas de trabalho, quando elas acreditam que seu próprio ponto de vista não é amplamente compartilhado. Tal tendência é chamada de “espiral de silêncio.”

Alguns criadores e entusiastas da chamada mídia social tinham a esperança de que as plataformas de mídia social como Facebook e Twitter poderiam propiciar espaços de discussão suficientemente plurais para que as pessoas com pontos de vista minoritários pudessem se sentir mais à vontade para expressar suas opiniões, ampliando, assim, o discurso público e acrescentando novas perspectivas à discussão cotidiana de questões políticas e sociais.

A visão tradicional da espiral do silêncio é que as pessoas optam por não falar por medo do isolamento. Alguns estudos da ONG americana PewResearch descobriram que é comum os usuários de mídia social se darem conta de que tinham uma visão errada das opiniões e posições de seus amigos e acabarem sendo surpreendidos quando descobrem as verdadeiras posições dos seus amigos através de mídias sociais. Assim, é possível que as pessoas não queiram levar a público seus pontos de vista minoritários, com medo de decepcionar os amigos, entrar em discussões infrutíferas, ou simplesmente perder a amizade. É possível que algumas pessoas prefiram não compartilhar suas opiniões nas mídias sociais porque não é fácil garantir que suas postagens infelizes sejam apagadas e por isso podem inclusive ser encontradas mais tarde, talvez por possíveis empregadores ou outras pessoas influentes. Quanto ao porquê da ausência de concordância em plataformas de mídia social se espalhar em uma espiral de silêncio em ambientes físicos, especula-se que os usuários de mídia social por ter testemunhado aqueles com opiniões minoritárias experimentando ostracismo, ridículo ou intimidação online, isso pode aumentar a percepção de risco de compartilhamento de opinião em outros ambientes.

Em última instância, muitas pessoas preferem evitar que as coisas que elas dizem on-line sejam associadas a suas identidades off-line. E por uma razão simples: elas se preocupam com retaliação política ou econômica, assédio ou até mesmo, em casos extremos, ameaças às suas próprias vidas. Os denunciantes anônimos, por exemplo, revelam informações que as empresas e os governos preferem suprimir; defensores dos direitos humanos lutam contra governos repressivos; vítimas de violência doméstica tentam reconstruir suas vidas longe de seus abusadores.

Em vez de usar seus nomes verdadeiros para se comunicar, essas pessoas preferem falar usando pseudônimos (nomes falsos) ou de forma completamente anônima. Para esses indivíduos e as organizações que os apoiam, o anonimato seguro é fundamental. Pode literalmente salvar vidas.

A bem da verdade, ainda que a primeira reação ao anonimato seja a de rejeição, há que se reconhecer que comunicações anônimas têm um lugar importante no nosso discurso político e social. A Constituição brasileira garante a liberdade de expressão, mas proíbe o anonimato. Por outro lado, nos Estados Unidos a Suprema Corte tem se manifestado reiteradamente no sentido de que o direito à liberdade de expressão anônima é protegido pela Primeira Emenda.

Um levantamento realizado pela Knight Foundation com 10.463 jovens do ensino médio e 588 professores americanos divulgado em 17/09/2014 revelou que os jovens estão mais preocupados com a liberdade de expressão do que os adultos, incluindo seus professores. Segundo o relatório da pesquisa, a quinta realizada nos últimos 10 anos, essa foi a primeira vez na história que os jovens se declararam mais em favor da Primeira Emenda à Constituição dos Estados Unidos (adotada em 1791 para proteger a liberdade de expressão) do que os adultos. Dez anos atrás, quando a pesquisa começou, 35% dos jovens disseram que a Primeira Emenda foi longe demais em comparação com 30% dos adultos.

A pesquisa também descobriu que os jovens que consumiam mais notícias on-line foram os mais favoráveis à defesa incondicional da liberdade de expressão. E aqueles que tinham sido ensinados em aula sobre a Primeira Emenda foram mais favoráveis ainda.

Em manifesto contra a proibição do anonimato no ciberespaço, a ElectronicFrontier Foundation (EFF) defende que as comunicações anônimas têm um lugar importante no discurso político e social dos regimes democráticos. A Suprema Corte dos Estados Unidos decidiu reiteradas vezes que o direito à liberdade de expressão anônima é protegido pela Primeira Emenda da Constituição americana. Em decisão marcante e bastante citada em 1995 a Corte determina:

“Proteções para o discurso anônimo são vitais para o discurso democrático. Permitir aos dissidentes que protejam suas identidades os liberta de expressar opiniões críticas minoritárias. . . O anonimato é um escudo contra a tirania da maioria. . . . E, por conseguinte, exemplifica o propósito por trás da Declaração de Direitos e da Primeira Emenda em especial: proteger da retaliação os indivíduos impopulares . . . nas mãos de uma sociedade intolerante.”

Em debate no portal do New York Times sob o mote “o anonimato na web dá às pessoas liberdade demasiada para importunar e atormentar os outros?”, a antropóloga e estudiosa do fenômeno do hacktivismo e autora do livro “Hacker, Hoaxer, Whistleblower, Spy: The Many Faces ofAnonymous” a ser publicado em Novembro de 2014 pela Verso, Gabriela Coleman chama a atenção para a necessidade de encarar com cautela os problemas decorrentes do mau uso do anonimato na Internet. Segundo Coleman, é importante que, quando possível, as empresas de Internet que se especializam em conteúdo, como as empresas de mídia social, busquem coibir o assédio moral e tentativas de intimidação ou humilhação dentro de suas plataformas. Mas também é preciso levar em conta o que perderíamos se partíssemos para a proibição, ou mesmo para o desestímulo indiscriminado do uso do anonimato na Internet. Debates sobre trolls (gíria da Internet para “perturbadores”) frequentemente confundem anonimato com incivilidade, mas um olhar mais amplo sobre as atividades on-line revela o bem público que pode advir quando os usuários têm a possibilidade de esconder a sua identidade. Para o bem ou para o mal, o anonimato põe o foco na mensagem ao invés de no mensageiro. Portanto, o anonimato facilita o discurso honesto, cria um contexto igualitário para a troca de ideias, e permite que a criatividade aflore sem a interferência de qualquer filtro.

A bem da verdade, quando se trata de anonimato na Internet, o conceito traz consigo nuances, e ao invés de algo pristino como “ausência da verdadeira identidade”, o anonimato fica mais “prismático”, como diz Chris Poole, criador, aos 15 anos de idade, do fórum 4chan, uma espécie de referencial para os defensores do anonimato na Internet. Numa postagem recente no seu blog intitulada “The anonymity I know”, Poole, usando o termo anonimato num sentido amplo que inclui pseudonimato e todos as suas graduações, lembra que em sua palestra sobre o 4chan no portal TED em 2010 expressou sua “preocupação de que na corrida para abraçar as redes sociais, comunidades anônimas foram rapidamente indo para o caminho do dinossauro, e que o mundo estava à beira de perder algo incrivelmente valioso”. Segundo Poole, poucas comunidades têm crescido em tamanho e têm conseguido influenciar tanto a cultura mainstream como o 4chan tem, e por tanto tempo, e isso seria o resultado de permitir que as pessoas interajam sem o peso de ter que usar a verdadeira identidade, de possibilitar que elas compartilhem e explorem novas idéias em conjunto.

Ao permitir a comunicação anônima e garantir que as conversações não permanecem no fórum por muito tempo, o 4chan tem propiciado uma combinação de anonimato e efemeridade que acaba promovendo a experimentação e a criatividade numa intensidade raramente vista. Poole se diz impressionado com o que as pessoas podem fazer quando elas não se sentem receosas de errar publicamente, dado que não apenas as falhas não vão ser atribuídas a elas, mas também que tais erros vão ser logo arrastados por uma onda de novos conteúdos. Apenas ideias que ressoam com a comunidade em geral persistem, criando as condições mais ideais para a produção de conteúdo viral, o que acabou fazendo do 4chan uma das primeiras "fábricas de memes" da Web.

Na ocasião em que escreveu o post, Janeiro de 2014, Poole se declarava entusiasmado com o grande sucesso do aplicativo Snapchat que combina anonimato com efemeridade, e atribuía isso a uma possível ressurgimento de uma demanda popular por produtos que incorporem tais possibilidades. Estaríamos talvez à beira de uma febre pela exploração ou redescobrimento deste novo bem, com empreendedores, investidores e jornalistas, todos na expectativa de se aproveitar da oportunidade.

Coincidentemente, no início do mês seguinte, Nick Bilton, correspondente de tecnologia do New York Times, publica um artigo intitulado “Enteringthe Era of Private andSemi-AnonymousApps” que começa sugerindo que todos os dispositivos conectados à web deveriam vir com um alerta do tipo “tudo o que você fizer on-line pode ser usado contra você”. Bilton lembra que ao longo dos últimos anos, ficou claro que tudo o que fazemos on-line de alguma forma está sendo monitorado e amarrado à nossa identidade off-line. Cada atualização, curtição ou comentário que fazemos fica para sempre.

Mas uma série de novos aplicativos - incluindo Wut, Secret, Confide, Gaggle, YikYak, Whisper, Randid, Ask.fm, Spring.me, Kik, Speakle e Telegram - que surgiram nos últimos 12 meses estão enchendo de esperança aqueles que desejam fugir desse monitoramento ubíquo e contínuo. Esses aplicativos chegam com a oferta de ferramentas de comunicação através das quais os usuários possam falar secretamente com pessoas que conhecem, ou deixar escapar comentários aleatórios para estranhos.

Talvez um sinal de que é grande a demanda por ferramentas de comunicação anônima, o aplicativo Secret, que em 2014 explodiu de popularidade tanto nos Estados Unidos como no Brasil, tendo sido lançado no final de 2013, já permitiu a seus criadores levantarem um total de 25 milhões de dólares em investimentos, atingindo em Julho/2014 um valor de mercado avaliado em 100 milhões de dólares. Muito poucas startups chegaram a um valor de mercado de nove dígitos (em dólares) mais rápido do que Secret, embora os dados exatos de toda a indústria sejam difíceis de encontrar. Whisper, por exemplo, lançado em 2012, levou mais de um ano para atravessar os 100 milhões de dólares em valor de mercado.

Diante de toda essa nova realidade, parece mais racional admitir que a conscientização para o bom uso e a sanção social para os que venham a cometer deslizes serão mais eficazes do que proibições e atitudes radicais restritivas. É preciso acreditar que o que as pessoas desejam é criar produtos inteligentes que realmente reimaginem a identidade para a era digital, ao invés de simplesmente incorporar "anonimato" e "efemeridade" como chavões de marketing.

Como diz Ryan Miller, professor de Comunicação do Collegeof Charleston, em seu post no New York Times “Dialogue isImportant, EvenWhanIt’sImpolite” (19/08/2014), a falta de civilidade é um problema difícil para a sociedade moderna, pois suas questões subjacentes são invariavelmente sociais. Mas a intermediação restritiva apenas serve para afogar o valor generativo de diversas vozes que se engajam. O impulso para o silêncio pode ser tão incivil quando o importúnio que o inspirou. E a civilidade pode ser ensinada e estimulada, sobretudo no seio das novas gerações.

E quando se fala de civilidade, nunca é demais lembrar os 3 R’s do Dalai Lama: Respeito por si mesmo. Respeito pelos outros. Responsabilidade por suas próprias ações.

Ruy J.G.B. de Queiroz, Professor Associado, Centro de Informática da UFPE