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Olga de Mello

Olga de Mello

Jornalista, acredita que cultura é gênero de primeira necessidade

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Ler é difícil

1984Cada dia é mais difícil ler. Porque a cada dia somos obrigados a ler mais. Leitura informativa, não formativa. Notícias úteis, inúteis, sempre urgentes. Desinteressar-se, alienar-se da realidade não é direito de quem pretende estar integrado ao mundo em rede. É preciso baixar um filme, opinar sobre o panorama político-econômico, assistir a debates, programas de TV, clipes musicais. E passar infinitas, frequentes, constantes mensagens pelo celular, um artefato que nem George Orwell concebeu em 1984 (Companhia das Letras, R$ 45), uma distopia que previu um mundo onde a vigilância supera qualquer anseio por liberdade.

Os sobreviventes

Na década de 1970, Eu, Christiane F., 13 anos, drogada, prostituída (Bestbolso, R$ 20), o relato de uma jovem alemã sobre seu mergulho no universo das drogas pesadas, vendeu milhões de exemplares em mais de 30 países onde foi lançado. Pouco se soube de Christiane Felscherinow ao longo dos últimos 40 anos, exceto suas prisões e recaídas na dependência química. Quando estava perto de completar 50 anos de idade, uma série de entrevistas à jornalista Sonia Vukovic foram reunidas em Eu, Christiane F., a vida, apesar de tudo (Bertrand Brasil, R$ 30).

Incentivar o dever ou estimular o prazer?

A intenção é boa e incentiva a retomada da leitura, mas o Tweet for a Read, o marcador de livro digital que avisa ao leitor sobre o livro que ele deixou esquecido na mesa de cabeceira, não serve para mim. Tecnologicamente interessantíssimo, tem um sensor de luz ativado sempre que o leitor fecha o livro. Dependendo da programação determinada - horas, dias, semanas -, um nano computador com wi-fi dispara tuítes para o relapso, usando frases do autor da história abandonada. Ou seja, um tuíte-reprimenda, que praticamente incorpora a função materna de encher qualquer preguiçoso de culpa.

Sobre devoção, interesses e modernidade

Fim de um dia desses, minha ex-professora e pensadora que tanto admiro, Giovanna Dealtry, demonstra sua indignação, no Facebook, contra quem afirma que os livros de mais de 800 páginas são incompatíveis com a atualidade. Até entendo o desânimo de abrir um volume de mais de 500 páginas diante de tudo o que se faz diariamente – trabalhar, entrar na Internet, responder a e-mails, telefonar, dar alô aos conhecidos no Whatsapp, jogar alguma coisa no tablet, no celular ou no computador, comprar algo pela tela, pagar contas e ficar pendurado no Facebook. Sejamos sinceros. A maioria das pessoas não percorre as 800 páginas por falta de tempo, não. É por falta de interesse mesmo.

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