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A epidemia da sick lit

A epidemia da sick lit Foto: Divulgação A epidemia da sick lit

A questão que nunca morre: entretenimento é literatura? Para onde vai a cultura, a tradição, a estética se o mundo quer consumir produtos que não estimulam o raciocínio, mas apenas distraem. Enquanto eruditos debatem o fim da civilização, escritores “comerciais” ganham a vida honestamente, lançando sucessos e mais sucessos que encantam, momentaneamente, o público. O leitor comum, aquele que movimenta o mercado editorial, nem sempre está à procura de uma leitura reflexiva e de qualidade. 

Quem negocia livros sabe que o sucesso de boa parte da safra de novos escritores – youtubers, repetidores de fanfics, criadores de histórias fantásticas, entre outros – tem vida curta, no máximo seis meses, segundo um livreiro. Há quem reclame que árvores são derrubadas para imprimir histórias inconsequentes, porém, afirmam as editoras, esses livros sustentam o mercado “cabeça”. E é só recordar ainda de Charles Dickens e Alexandre Dumas, dois mestres do folhetim, publicando suas histórias em jornais no fim dos século XIX. O francês Dumas, precursor da linha de montagem literária, tinha um pesquisador e diversos desenvolvedores de tramas em sua folha de pagamento. O pesquisador buscava os fatos históricos, Dumas alinhavava a narrativa, os colaboradores redigiam e, antes de mandar os capítulos dos folhetins para os jornais, ele conferia e editava o texto final. Nada muito diferente do que escritores de teledramaturgia fazem hoje.

A maioria dos novos frequentadores das listas de mais vendidos trabalha temas consagrados. Distopias com a luta do Bem contra o Mal, amores impossíveis, romances picantes, e, ultimamente, o filão sick lit, que descreve uma doença incurável e as lições de vida que o paciente distribui antes de falecer. Se juntar um complicado caso de amor ao padecimento pela moléstia, melhor: a fórmula foi empregada com bons resultados por Alexandre Dumas Filho, em A Dama das Camélias

ogarotodocachecolvermelhoagarotadassapatilhasbrancasA paulista Ana Beatriz Brandão, de 17 anos, começou a escrever aos doze. Depois de dois livros fantásticos, pesquisou a esclerose lateral amiotrófica (ELA) e criou duas sick lit: O garoto do cachecol vermelho ( Verus, R$ 34,90) e sua continuação, A garota das sapatilhas brancas (Verus, R$ 29,90). O protagonista é um jovem que aproveita a vida apesar das limitações impostas pela doença. Parte das vendas dos livros é revertida para instituições de pesquisa da ELA que ajudaram Ana Beatriz a reunir informações sobre a doença ao longo de um ano. 

 

aculpaedasestrelasinventeivoceEmbora o sick lit não seja uma novidade, sua ascensão a pandemia se deve ao sucesso de A culpa é das estrelas (Intrínseca, R$ 39,90), que vendeu mais de 18 milhões de cópias no mundo inteiro, desde seu lançamento em 2012. A volúpia dos leitores pela sick lit se multiplicou também devido à adaptação cinematográfica do romance. No entanto, Love Story best-seller de Erich Segal, publicado em 1970, que também virou filme, contando a história de um jovem viúvo acompanhando o padecimento de sua mulher de leucemia, até hoje vendeu 21 milhões de exemplares. Como o que não falta é doença a ser explorada pelos autores, muitos jovens escritores vem buscando falar sobre tabus como a esquizofrenia, abordada pela americana Francesca Zappia, de 24 anos, em Inventei você? (Verus, R$ 39,90). Enquanto tenta esconder sua condição dos colegas de escola, diariamente, a protagonista fotografa quase tudo que vê, por não ter certeza se imagina pessoas, objetos e situações.

Olga de Mello

Jornalista, acredita que cultura é gênero de primeira necessidade

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